Santo Agostinho, depois de uma longa, cansativa e inútil procura pela felicidade nos prazeres e vaidades do mundo, descobriu que ela não se encontrava ali. E compreendendo que toda a felicidade que vivemos aqui na terra é um reflexo, muito fosco, daquela que viveremos na Pátria Celeste com Deus, escreve na primeira página de suas “Confissões”: “Fizestes-nos para Vós, e nosso coração está inquieto enquanto não descanse em Vós”. Contemplando o salmista que clamava: "As tuas ordens são a minha herança para sempre, porque elas alegram o meu coração" (Salmo 118 v. 111), Santo Agostinho comenta o tema da felicidade que brota do cumprimento da Lei do Senhor: "Este longuíssimo Salmo convida-nos desde o início à felicidade que, como sabemos, está presente na esperança de cada homem. De fato, poderá existir alguém que não deseje ser feliz?” Qual é o motivo desse desejo? “Não será talvez porque, mesmo se todos aspiram à felicidade, é, contudo desconhecido a muitos o modo como alcançá-la? Sim, é precisamente este o ensinamento daquele que exclama: Felizes os íntegros nos seus caminhos, os que andam na lei do Senhor. (Salmo 118 v.1)”. Sei o que desejas; sei que procuras a felicidade; pois bem, se queres ser feliz, mantenha-te limpo de qualquer mancha. Não te deixes “atemorizar em nada pelos adversários” - recorda-nos S. Paulo. Não te deixes atemorizar por aqueles que indicam no pecado o caminho que conduz à felicidade, pois é a sua destruição. Ao contrário, empenha-te nas boas obras. Pratica a caridade para com o teu próximo e recorda-te das palavras de Cristo: “... cada vez que fizeste isto a um desses meus irmãos, é a mim que o fizeste” (Mt. 25, 45) ou ainda: “ terás uma grande recompensa nos céus” (Lc. 6, 23). Então, qual é o caminho da felicidade? O caminho da felicidade é o caminho do amor, pois o homem nasceu do amor que é Deus. O amor e a felicidade fazem parte da natureza do homem.
Retornando ao salmista que calma: “Felizes os íntegros nos seus caminhos, os que andam na lei do Senhor” podemos contemplar o homem coerente e virtuoso que busca, segundo o seu reto juízo, aquilo que lhe faz feliz, aquilo que lhe da uma satisfação pessoal. E somente Deus pode preencher totalmente a sede de felicidade que ele sente. Essa felicidade encontrar-se-á no cumprimento das leis do Senhor, ou seja, na fidelidade, como nos recorda o salmo precedente. “… Ele deseja a vossa felicidade, mas quer que saibas conjugar sempre a fidelidade com a felicidade, pois não pode haver uma sem a outra”. É muito natural que o homem sinta em seu interior esta sede pela felicidade que somente Deus pode saciar. E uma vez experimentada essa felicidade interior, que procede da intima relação da criatura com o seu Criador, o homem sente o desejo de comunicá-la aos demais. “Há mais felicidade em dar que em receber!” (At 20, 35). Se, pois, o homem deseja encontrar satisfação para a sede de felicidade que lhe abrasa o coração, é para Cristo que deve orientar os seus passos. Cristo não está longe dele. Nossa vida aqui na terra é, na realidade, um contínuo suceder-se de encontros com Cristo: com Cristo presente na Sagrada Escritura, como Palavra de Deus; com Cristo presente nos seus ministros, como Mestre, Sacerdote e Pastor; com Cristo presente no próximo, especialmente nos pobres, nos enfermos, nos marginalizados, que constituem os seus membros sofredores; com Cristo presente nos Sacramentos, que são os canais de sua ação salvadora; com Cristo hóspede silencioso dos nossos corações, onde habita comunicando sua vida divina.
Ernandes Aparecido Campagnoli é escritor, auditor, gerente e especialista em TI (e-mail:
eacampagnoli@bol.com.br).