Existe um velho ditado popular que diz: “Santo de casa não faz milagre”. E as raízes dessa afirmativa aparecem já na vida terrena de Jesus, o filho de Deus. No Evangelho de Lucas 4, 14-30, há uma narrativa que confirma essa verdade popular:
“Jesus, então, cheio da força do Espírito, voltou para a Galileia. E a sua fama divulgou-se por toda a região... Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler... Escolheu a passagem do livro de Isaías onde está escrito (61,1s): ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a Boa-Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para publicar o ano da graça do Senhor’; todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Ele começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir’... E eles diziam entre si: ‘Não é este o filho de José, o carpinteiro?’... Ele acrescentou: ‘Em verdade vos digo: nenhum profeta é bem aceito na sua pátria’”. Quando ouvia essa leitura, numa missa de domingo, me veio à mente o ocorrido com o Boris Casoy no Jornal da Band, próximo ao Natal do ano passado, quando dois felizes garis transmitiam sua mensagem de Natal aos telespectadores no intervalo do noticioso e o jornalista, traído pelos microfones ligados, emitiu aquele escabroso comentário pensando que falava só aos colegas do Studio e as suas barbaridades foram ouvidas pelo Brasil inteiro: “Dois lixeiros, do alto de suas vassouras, desejando boas festas! Que mer...! É a mais baixa categoria de trabalhadores!”
No mundo atual é preciso que estejamos sempre atentos e sintonizados com os sinais dos tempos para distinguir quem são os profetas e discernir sobre o que é anuncio da Boa Nova e o que é denuncia das injustiças e das iniqüidades que se pratica contra o povo. É preciso ter clareza para escolher entre a vontade de Deus, a nossa vontade e a das estruturas da sociedade.
Entre os ouvintes de Jesus, alguns passam a segui-lo; outros duvidam e desacreditam chegando até ao deboche; não poucos o hostilizam e perseguem até a morte. Porque reações tão diferentes? A resposta pode ser conseguida se avaliarmos as conseqüências de uma e de outra opção. É fácil encantar-se com Jesus e até ensinar suas palavras. Outra coisa é compreender que o compromisso com Ele implica sérias conseqüências: trilhar seu caminho de doação, que poderá exigir até a própria vida, comprometendo-se com a libertação dos pobres em todas as suas características.
Profetizar hoje, anunciando as maravilhas de Deus e sua atuação na história da humanidade sem gerar compromissos sérios, normalmente não desperta a ira e a fúria dos adversários e dos acomodados. Porem, quando denuncia as injustiças, a miséria e a violência reinantes na sociedade, mexendo com privilégios de grupos poderosos, com as estruturas instaladas, aí sim o profeta começa a sentir o lado duro da missão, pois não pode se calar diante da degradação humana.
Quando o profeta atual assume o desafio de defender os pobres e oprimidos, sabe que vai enfrentar o poder instalado, uma grande parte da comunidade ou mesmo a sociedade como um todo, não dispostos a acatar a mensagem que exige mudanças de atitude e transformação. Mas sabe também que tem sobre si a força do Espírito a infundir-lhe a sabedoria e a força para converter os corações abertos à justiça.
Muitos profetas, de ontem e de hoje, assim como Jesus, foram e são rejeitados, perseguidos e mortos pela sociedade porque lhe são incômodos e ela não os atura em seu convívio. Estes, como disse D. Helder Câmara, quando morrem não são enterrados, mas semeados na terra para que seus frutos continuem a se reproduzir no seio da humanidade.
Aí estão os exemplos de Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Irmã Dorothy, Chico Mendes, Santo Dias, Pe. Ezequiel Ramin, Pe. Josimo Tavares, Dra. Zilda Arns, semeados juntamente com tantos outros, a espalhar seus frutos, os frutos de suas profecias, por sobre a grande família humana do universo.
Antonio Oswaldo Storel é Coordenador do CNLB – Diocese de Piracicaba.