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Economia: vôo de águia ou de pardal?

Publicado por admin em 06/02/2010 (217 leituras)
Esta é a pergunta que a cada início de ano o empresário brasileiro, de uma forma ou de outra tem de responder, pois a empresa requer decisões. Avaliar as forças de mercado para estimar preços de insumos e de produtos, avaliar o cenário dos principais mercados no exterior e Brasil e estimar crescimento da demanda e dos preços dos produtos importados requer estimativa das principais taxas cambiais, previsão de crescimento, de níveis de juros, pelo menos, um desafio hercúleo. Poucos conseguem ver como é crítica a necessidade de uma projeção integrada dos Demonstrativos Financeiros e do Fluxo de Caixa, periodicamente revisados. Pena saber que a maioria das empresas de porte pequeno e médio não integram suas projeções, nem mesmo tem centro de custos. Como sobreviver em um mundo global, onde tem crescido o fator risco? Não há “bola de cristal”, a maioria dos economistas não conseguiu prever a crise do mercado financeiro mundial em 2009 e, muito menos, avaliar as suas consequências. Ainda é mister refletir sobre as “fusões” forçadas de duas grandes corporações nacionais no segundo semestre de 2009, o que isso representa para o futuro.

Para desenhar cenários sobre a economia brasileira em 2010 e à frente é necessário entender-se suas características estruturais. O Brasil tem apresentado uma economia cíclica, mas sujeita a efeitos externos, devido à crônica dependência de poupança externa para oxigenar seu crescimento, elevando o risco da elaboração e da estimativa da possibilidade de ocorrência de cada cenário. Desde os anos 90 o mundo é um só e o risco de contágio elevou-se em intensidade e velocidade, potencializando o impacto final. Por outro lado, a economia brasileira sofre (em relação às economias asiáticas), da epidemia de baixa taxa de poupança, via de regra abaixo de 18% ao ano sobre o PIB, contra mais de 30% daquelas economias já referidas. A dependência umbilical de poupanças externas para turbinar o crescimento aumenta a instabilidade dos cenários para a economia brasileira. Esta situação de dependência de poupanças agravou-se nos últimos anos pela crescente dependência da exportação de “commodities”, especialmente concentrada em grandes mercados (caso da China) e poucos produtos (caso de minério de ferro, soja, açúcar, carnes), com preços relativamente mais voláteis que os manufaturados. O maior ganho do Plano Real, de1994, foi a progressiva estabilidade econômica, porém deve-se lembrar que os países estão cada vez mais unidos, os ganhos e as perdas de uns passam imediatamente para os demais; todo cuidado é pouco. O ano de 2010 aponta para um nível de crescimento do Produto Interno Bruto da ordem de 5% a 6%, um número bom em termos internacionais (exceto a China e alguns países asiáticos), mas baixo em termos da média histórica do Brasil de 1945 a 1960, e das necessidades do país em termos de geração de renda e emprego. Mesmo com essa baixa taxa de crescimento as estatísticas já apontam para um cenário complicado em 2010 para o Brasil: a) Forte deterioração do saldo da conta comercial; b) Aumento da taxa do défice orçamentário consolidado sobre o PIB; c) as habituais pressões dos gastos públicos em um ano eleitoral. Essas forças negativas elevam a temperatura inflacionária e requerem uma ação corretiva por parte do guardião, o Banco Central. Esta é a razão pela qual o mercado financeiro projeta uma correção da taxa Selic (juros básicos da dívida pública de curto prazo), hoje de 8,75% ao ano, ainda para meados de 2010, para conter a demanda agregada, relativamente aquecida. Toda cautela é bem vinda, ao se considerar, em adição, que a desejada estabilidade no mercado internacional ainda precisa ser conseguida, a situação macroeconômica nos EUA e alguns países mais fracos da Zona do Euro ainda inspira cuidados. Assim não há como pensar em uma trajetória de crescimento tranquilo a longo prazo, pois sempre haverá necessidade de combustível importado (poupança externa).

Quem nasceu no interior como eu sabe que aves pequenas como o pardal costumam dar vôos baixos e curtos, de árvore em árvore. A águia dá vôos longos, nas alturas, graças à sua privilegiada musculatura e envergadura. Em contraposição a galinha dá voos aos pulos, quase não sai do chão, seu peso não é compensado pela curta envergadura e fraqueza das asas. Fazendo uma relação com as imagens acima eu diria que a China tem realizado um “voo de águia” e o Brasil, na melhor das hipóteses, voos curtos, mais parecido ao das aves pequenas citadas, mas bem superior ao “voo da galinha” o que já é um alívio.

João Francisco de Aguiar é Economista Doutor em Administração de Empresas na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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