Na minha família existem três ramificações de torcedores de futebol: são-paulinos (a maioria), palmeirenses e corinthiano (o corinthiano sou eu). São-paulinos são quatro: os filhos Helinho, Taninha e Priscila, e o neto Lucas, filho da Taninha. Palmeirenses, três: Cila, minha mulher (“virou casaca”, era corinthiana), o genro Márcio e o netinho Matheus – torcedor compulsório, induzido pelo pai. E ai se não torcer para o Palmeiras!
Fazer a cabeça do Matheus é tarefa para o pai Márcio. Já comprou camisa do Palmeiras, caneca com o símbolo do time, short verde. Imagine a cabecinha do menino: é Palmeiras pra todo canto. Esse filme eu já vi.
Morávamos no Alto de Pinheiros, em São Paulo, e meu sobrinho, Valdir – hoje vereador pela 5ª. vez em Pirassununga – morava conosco. Corinthiano como ele só! O Helinho tinha cinco anos na época e dava a entender que não era muito de futebol (e não é até hoje). Valdir, então, entrou em cena. Fez de tudo pra o garoto torcer para o Corinthians: vestiu Helinho com uniforme completo do Corinthians – da cabeça aos pés - e o levava em quase todos os jogos do time marcados para o Morumbi: até na final do campeonato paulista de 74 quando o Santos venceu o Corinthians por 1 a 0 (gol de Serginho) e ficou com o título. Estádio lotado, Valdir precisou colocar o Helinho montado em seu pescoço para que o garoto pudesse acompanhar o jogo.
Passou o tempo, Helinho cresceu e, no início dos anos 80, mudamos para um sobrado no Jardim Bonfiglioli. Valdir já não estava mais conosco. Na época quem mandava no futebol paulista era o São Paulo, com os chamados “Menudos”: Müller, Careca, Sidney e Silas (hoje técnico do Grêmio). Só dava São Paulo com um futebol solto, alegre, bonito de se ver. A rádio Jovem Pan acompanhava o time, em todos os jogos. Adivinhe que time Helinho escolheu pra torcer e que rádio escolheu para ouvir! E olha que seu pai, trabalhava, era... na Bandeirantes!
Matheus e eu temos uma brincadeira, só nossa, de um provocar o outro: “Pallllmeiras!”, grita ele. “Coooorinthians!”, respondo; “Pallllmeiras!”, repete; “Coooorinthians!”, retruco. “Sai Zica!”, termina ele com o sorrisinho maroto. “Sai Zica!” é mais um bordão ensinado pelo pai Márcio, que insiste na luta para manter o garoto no palmeirismo. (“Sai, Zica!”, pra quem não sabe, quer dizer “Sai, Azar!”, “Xô, Urucubaca!”).
No último domingo, dia de clássico “Corinthians x Palmeiras” no Pacaembu, Matheus e eu sentamos no sofá da sala para acompanhar o jogo. Só nós dois. Comecei, então, a narrar como se estivesse transmitindo uma partida de futebol pelo rádio: “Lá vai o Palmeiras pela direita, desce Figueroa, passa por Danilo, vai à linha de fundo, cruza para a área, sobe Robert, seguuuura Felipe!”. Matheus seguia a narração interessadíssimo. Nunca tinha ouvido a narração de um jogo de futebol. E eu não podia parar: “Continua, vô, continua!” A cada bola que saía de campo, lá vinha a pergunta: “Vô, quem chutou pra fora?”. Quando saiu o gol do Corinthians, marcado por Jorge Henrique, vibrei, como qualquer narrador corinthiano: “Goooool do Corinthians! Jorge Henrique!”. Matheus, bracinhos levantados, mãozinhas fechadas, acompanhou-me na comemoração. Pra ele tudo era festa, ainda mais levado pela alegria do avô. Entrou na onda: “Goooool do Corinthians!”, gritou. Depois se deu conta: “Pallllmeiras!”, tentou corrigir.
Não sei não, mas numa dessas Matheus segue o caminho que o “tio” Helio trilhou. Vai ser um “Deus nos acuda!” para o pai Márcio ver o menino vestido de branco e preto.
Paulo Edson é jornalista e radialista (e-mail:
pauloedson@hotmail.com).