Pesquisa avançada
 
Edição Revista : Colômbia brilha no Salão de Humor
em 12/09/2008 23:00:00 (471 leituras)

Com a caricatura de Samuel Beckett, o artista Harold Sandoval foi o destaque desta edição ao ganhar o troféu ‘Zélio de Ouro’

Ana M. C. Rodríguez

Open in new windowO grande estado de São Paulo não conhece muito da Colômbia. Quando falo “sou colombiana” a gente se agrada mais do que eles só de ter escutado em falar do meu país em “algum lugar” e dificilmente sabem onde fica, como é nossa cultura e, muito menos, quais são os laços que nos unem. É difícil ser estrangeiro, a solidão se converte no único aliado e constantemente se luta para não deixar de ser colombiano. Nossa casa se converte num templo, o único lugar onde podemos ser nós mesmos, de viver nossas tradições, escutar nossas músicas, preparar nossa comida. Depois da porta somos simplesmente estranhos tentando atuar como brasileiros. Porém, coisas inesperadas acontecem nos lugares menos esperados e o destino se encarrega de lembrarmo-nos do orgulho de ser colombianos.

Era abertura do 35° Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o festival de humor gráfico mais antigo do mundo que iniciou em plena Ditadura Militar Brasileira. Eu estava na quarta fila, sentada entre uma multidão, tentando ser piracicabana. Iniciou a entrega dos prêmios, aplauso atrás aplausos para os ganhadores, artistas nacionais e internacionais, mais de dois mil trabalhos na disputa, 332 selecionados para a mostra e somente 11 premiados. Porém, aconteceu o menos imaginado, o prêmio para melhor caricatura foi para um colombiano, Harold Ortiz Sandoval, com uma bonita e artística caricatura do escritor e dramaturgo Samuel Beckett. Eu aplaudi com todas minhas forças, porém me perguntava: “Será que entendi mal?”. Ao final, foi anunciado o ganhador do troféu “Zélio de Ouro”, prêmio principal, e repetem novamente: Harold Ortiz, da Colômbia. Meu coração colombiano deixou as quatro paredes da minha habitação, minha garganta gritou com toda sua força e minhas mãos ficaram vermelhas de aplaudir, o público me olhava sem compreender; só eu sabia o motivo da minha euforia.

Depois da agradável surpresa me dei a tarefa de pesquisar sobre este talentoso caricaturista colombiano e contatar-me com ele. Quando perguntei por sua cidade de origem me escreveu com muito humor: “Nasci em Cali, foi criado em Santa Marta e mal criado em Medellín”. Aos oito anos, descobriu sua vocação pela caricatura, mas foi aos 17 que começou seriamente no mundo do humor gráfico participando e fundando diferentes escolas. Desde três anos se incorporou ao mercado laboral gráfico, fazendo parte de uma agência de comunicações em Medellín e continuou realizando caricaturas para meios impressos, páginas na internet, blogs e festivais. Também participou de diferentes eventos internacionais na Itália, Espanha, Croácia, e seu nome começou a soar entre o mundo do cartoon depois de Portocartoon (Portugal) e agora no Salão Internacional do Humor de Piracicaba (Brasil).

Perguntei à diretora do Centro Nacional de Humor Gráfico de Brasil, Maria Ivete Araújo Marcolino, a Zetti, pelo trabalho de Harold, e ela respondeu: “Este jovem logrou desenvolver uma técnica nova, através da perfeição de técnicas tradicionais e logrou se diferenciar entre grandes caricaturistas profissionais. Isso foi o que chamou a atenção, mas não é só em nosso festival; ele vem chamando a atenção desde outros eventos”.

O caricaturista colombiano conseguiu cativar aos juízes não só por sua técnica artística como também pelo conceito. “A intenção de uma caricatura de fisionomia, mais que ridicularizar e exagerar, é opinar, desde uma visão artística, humana e social. Trato de fazer caricaturas de personagens que influem e impactam na minha vida, tento fazer um vínculo entre o personagem e o público para finalmente criar uma inquietude”, expressa o artista. “É a mentira mais honesta de transmitir o que penso e sinto das pessoas”. Harold utiliza técnicas mistas como pastel, lápis de cor e acrílico para as caricaturas de fisionomia.

Para o artista colombiano, este salão é um dos eventos que sempre um profissional quer ganhar; “é especial por sua trajetória e o nível”. Especialmente para os caricaturistas de fisionomia, este evento representa muito, dado que o nível desta categoria no Brasil está dentro dos melhores no mundo. “É como marcar um gol no Maracanã”, diz Harold.

CARICATURISMO COLOMBIANO
Desde quase 20 anos, a Colômbia está no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, com uma participação não muito numerosa (entre quatro e sete trabalhos); porém, tem ganhado respeito entre o cartum brasileiro. Nesta edição, o país está representado com cinco trabalhos dos caricaturistas Sebastián Restrepo Quintero, Rafael Grarcía e Harold Ortiz Sandoval.

A Colômbia é um país berço de muitos artistas; nossa gente tem a cultura no sangue. Shakira, Juanes, Fernando Botero, Gabriel García Marquez e agora Harold Ortíz Sandoval são nomes que constantemente se escutam no Brasil e no mundo. Amanhã, os piracicabanos se esquecerão de Harold, novamente perguntarão por Colômbia sem lembrar de nada; mas continuarei contando a vocês a maravilha que é minha terra.

Ana María Correa Rodríguez é jornalista e mora em Piracicaba.

Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.
Comentários
Os comentários podem ser feitos mediante cadastro