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Maior evento sobre a chamada ‘arte ingênua’ do Brasil, a bienal em Piracicaba estimula a produção de artistas do gênero e fomenta legitimidade da proposta
Erick Tedesco tedesco@tribunatp.com.br
Arte ingênua, espontânea e instintiva. Estes são alguns dos adjetivos que críticos de arte e até mesmo leigos se referem ao estilo artístico Naïf, uma palavra francesa (ou naive, do inglês), que, de fato, designa tais atributos quando traduzidos ao português. Usualmente produzida por pessoas simples, com pouco ou nenhum estudo sobre artes, a expressão máxima nacional do estilo está potencializada na Bienal Naïfs do Brasil, do Sesc Piracicaba, que na noite desta sexta-feira, 5, inaugurou a sua nona edição.
A exposição de 2006/2007 trouxe, como de costume, novos debates sobre o que significa produzir arte naïf e, ainda, o que determina o artista naïf. De acordo com a coordenadora de programação da Bienal, Lúcia Lopes, na edição passada, o “entre culturas” foi apenas uma orientação da curadora Anna Mae Barbosa para montar a Sala dos Selecionados, mas não que fora um tema específico para mostra. A arte educadora também foi a responsável pela escolha de todas as obras da Sala Especial. Já na atual edição da Naïfs do Brasil, Lúcia explica que apenas a Sala Especial, com 64 obras, foi concebida por uma curadoria, no caso, pelo crítico de arte Olívio Tavares de Araujo. “São duas exposições distintas, porém correlatas, ambas sobre arte naïf. São visões diferentes a partir de um mesmo estilo”, fala a coordenadora da Bienal. Este é o segundo ano em que Lúcia está envolvida com a exposição do Sesc Piracicaba.
De acordo com a experiência do ofício, Lúcia acredita que a principal diferença entra a edição passada para a atual é a presença de esculturas na Sala dos Selecionados. “Isso aconteceu devido ao recorte que Anna Mae Barbosa fez na Bienal de 2006/2007 e não porque simplesmente deixaram esta manifestação artística de fora”, explica. Entretanto, mandalas de madeira, peças de cerâmica, carrancas, entre outras formas de escultura compuseram a Sala Especial em “Entre Culturas”.
A oscilação de expressões artísticas naïf, de edições passadas para a atual, também está na disposição da Bienal. O expositor usado na edição passada ainda é o mesmo, na Sala dos Selecionados, mas as obras que, agrupadas, compõem a Sala Especial, estão dispersas pela unidade. “Existe uma grande concentração em uma sala específica, enquanto outras estão no hall da entrada e pelos corredores”, aponta Lúcia.
“São 107 obras, de 70 artistas oriundos de 21 estados brasileiros”, fala a coordenadora da Bienal sobre o conteúdo da Sala dos Selecionados. Entre este número, cinco são artistas piracicabanos: Chico Crócomo (que participa pela primeira vez), Beth Elias, Geraldo Nascimento, Carmela Pereira e Amélia Gil, estas duas últimas que tiveram trabalhos selecionados na edição passada. Segundo Lúcia, na Sala Especial não há nenhum expoente de Piracicaba. As obras foram escolhidas no mês de junho passado pelo júri formado por Ângela Mascelani (antropóloga), Romildo Sant’Anna (escritor e jornalista) e Percival Tirapeli (artista plástico e acadêmico).
“Nesta Bienal o júri trabalhou nos mesmos parâmetros do que Anna Mae, a partir de núcleos do naïf, como festas populares, imaginário, crítica social, religião, entre outros”, revela Lúcia. São ao todo nove núcleos, que estão expostos agrupados na Sala dos Selecionados. “Também privilegiaram cores, composição, formas elementares, paisagens bucólicas e urbanas”, comenta.
O prêmio Destaque-Aquisição concedeu a dois artistas e respectivas obras selecionadas pelo júri um prêmio no valor de R$ 5 mil cada. O Prêmio Incentivo, de caráter não aquisitivo, concedeu a cinco artistas e suas obras escolhidas o valor de R$ 2 mil. O júri concedeu também certificados de Menções Especiais aos artistas e suas respectivas obras que se destacaram no processo seletivo da Bienal.
Entretanto, Lúcia credita a aura artística à grande sacada deste acontecimento. “A Naïfs do Brasil faz com que artistas se reconheçam como produtores deste estilo. Isso é reflexo no número de inscrições que, neste ano, foi superior a de todas as edições passadas. Significa que sabem da existência deste tipo de evento e procuram participar”, fala a coordenadora Lúcia. Para ela, a cidade de Piracicaba é ideal para abrigar a Bienal, pois “existe uma relação com festas populares ligadas a religiosidade que se encaixam bem ao que algumas pessoas buscam expressar através deste tipo de arte”.
Outro debate em voga na 9ª Naïfs do Brasil é a questão da relevância da primitividade das obras da mostra. Lúcia afirma que não se trata de privilegiar a arte simples, afinal, “o que o Sesc tenta é definir o naïf, não restringi-lo. A primitividade é apenas um tema que gera discussão sobre o que é a arte naïf e como se entende esta manifestação artística nos dias atuais”, pondera. “O evento neste sábado, 6, a Mesa Redonda, às 11 horas, com a presença de todo o júri, com intermediação do jornalista Romualdo Cruz Filho, explicará melhor estes conceitos, além de falar o que cada um privilegiou na hora de selecionar as obras”.
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